Qualquer armador que tenha atuado na NBA entre os anos 90 e o início dos anos 2000 pode atestar – a habilidade de executar os chamados passes de ‘entrada’, acionando o jogador no post a partir de diferentes ângulos, era um dos principais atributos da posição.
Isso porque, à época, o jogo se desenvolvia majoritariamente ‘de dentro para fora’. Ou seja, as equipes acionavam seus jogadores no post para que ele pudesse criar uma cesta interna ou atrair a defesa adversária antes de ‘quicar’ a bola para o perímetro.
Se esse estilo ainda predominasse na NBA contemporânea, certamente jogadores como Vernon Carey Jr. (Duke) e Greg Monroe (Bayern de Munique-ALE) poderiam funcionar como pilares do jogo ofensivo de suas equipes.
Pesados e físicos, ambos tem por característica a habilidade de ganhar posição profunda no garrafão –  e punir seus adversários fisicamente com dois ‘power dribles’ antes de finalizar com um toque macio com ambas as mãos. Tudo que somado a um ótimo trabalho de pés faz deles verdadeiros ‘profissionais no jogo de post’.
Mais do que apenas jogar de costas para cesta, aliás, tanto Carey Jr. quanto Monroe utilizam sua coordenação motora acima da média e o mesmo toque macio para conectar arremesso de média distância e serem efetivos nas oportunidades que vão à linha do lance-livre.
Acontece, porém, que o jogo mudou – como mostram os números dos ‘tipos de jogada’ mais repetidos pelas equipes na temporada 2019-2020.
Entre todas as equipes da NBA, só o 76ers teve média de dois dígitos de posses de bola que recorreu ao jogo de post – com 12.6 por jogo. Segundo colocado, o Lakers usou o post 8.9 vezes por partida. Entre os que menos utilizaram, destaque para o Nets – ‘lanterna’, com 0.4 posses por jogo.
Já quando o assunto é pick and roll – o 1º colocado foi o Jazz, com 28.1 posses por jogo, seguido do Trail Blazers, com 27.1. A lanterna ficou com o Rockets, com 11.8.
Cenário semelhante é a transição, que teve o Raptors na liderança com 24.2 posses por partida e – na lanterna – o Trail Blazers, com 14.3.
Essa mudança de ‘configuração’ do jogo colocou questões como a habilidade de finalizar na saída de pick and rolls e de correr a quadra na transição como as principais demandas para pivôs contemporâneos – dinâmica que certamente não contribui para o encaixe de jogadores mais pesados e pouco explosivos atleticamente como Carey Jr. e Monroe.
Além de ‘minimizar o que eles fazem bem e enfatizar aquilo que eles fazem mal’ no lado ofensivo da quadra, o estilo atual praticado na NBA os coloca também em posição desfavorável na defesa – forçando-os a frequentemente ter de conter jogadores ágeis na saída de pick and rolls, seja em soft ou hard hedges.
Pior ainda para ambos é o fato deles não possuírem uma envergadura de elite para compensar a falta de explosão atlética na proteção do aro, fator que diminui suas capacidades de serem efetivos em drop coverages – nas quais jogadores como Rudy Gobert e Brook Lopez compensam o fato de ‘oferecerem’ pullups em média ou longa distância para ball handlers ao tornar duríssima suas capacidades de finalizar no garrafão.

Essas dificuldades de encaixe na contemporaneidade da NBA fizeram com que Monroe, 7ª escolha do draft de 2010, fosse – prematuramente – empurrado para fora da liga. Hoje, aos 29 anos, atua no alemão Bayern de Munique.

Já para Carey Jr., é provável que a projetada dificuldade de adaptação o empurre para o final da primeira rodada ou início de segunda – algo que dificilmente aconteceria a, por exemplo, dez anos atrás, quando suas ótimas mãos e efetividade de costas para a cesta fariam dele uma escolha certa no top 10 na grande maioria das classes.