Dentre as franquias em processo de construção na Conferência Leste, o Charlotte Hornets é provavelmente a menos badalada. Talvez pelo histórico extremamente negativo sob o comando de Michael Jordan e as décadas de irrelevância na liga.

Desde a chegada do general manager Mitch Kuptchack, no entanto, a equipe deu passos importantes e hoje possui uma direção mais clara e segura que franquias como Bulls, Knicks, Pistons e Cavaliers.

Basta um olhar aproximado para a folha salarial do Hornets e os jogadores que a compõe para chegar à conclusão que a decisão de ‘seguir em frente’ da era Kemba Walker (Celtics) foi uma decisão acertada do ex-dirigente do Lakers.

O fato de não ter comprometido seu ‘cap space’ a longo prazo com o allstar dará a Charlotte uma enorme flexibilidade para seguir construindo seu elenco a partir do término da temporada 2020-2021, quando se encerram os contratos de Nicolas Batum e Cody Zeler.

Ao todo, a franquia terá apenas 32 milhões de dólares comprometidos em salários. Espaço suficiente para dois contratos máximos.

Nem só de flexibilidade salarial se faz um futuro, é claro. Afinal, jogadores de alto calibre precisam de uma razão ‘maior que só o dinheiro’ para assinar com uma equipe. Geralmente é necessário poder perceber, no mínimo, que existem elementos suficientes para formar um time competitivo.

E é exatamente nessa direção que caminha o Hornets.

Contestado pelo contrado de US$ 56 milhões diluídos em três temporadas que assinou nessa última offseason, o armador Terry Rozier respondeu como evolução em todos os aspectos de seu jogo em 2019-2020.

O ex-jogador de Louisville dobrou sua pontuação em relação à sua última temporada pelo Celtics (saltou de 9 para 18 pontos por jogo) – ao mesmo tempo em que aumento substancialmente sua eficiência, saindo de 47.7% para 51.4% em effective FG%, número impulsionado, sobretudo, por seu salto impressionante na linha dos 3-PT (35.3% com 4.3 tent. em 18-19; 40.7% com 6.7 tent. em 19-20).

Terry Rozier tem se provado um legítimo titular ao longo de 2019-2020

Seu crescimento como arremessador – sobretudo fora da bola, onde converteu impressionantes 45.7% de 3.7 tent. em situações de catch and shoot, se tornou especialmente importante no contexto de evolução do combo guard Devonte’ Graham.

Uma das histórias mais especiais da tamporada, Graham se firmou como um legítimo playmaker titular da liga – sobretudo por sua habilidade de desmontar defesas a partir do pick and roll, forçando seus defensores a ‘lutarem por cima de screens’ para contestar sua habilidade de conectar pullups longos.

Com os dois guards somados, o backcourt produziu média de 36.2 pontos – com 6.2 bolas de 3 por partida e aproveitamento de 38.7%, além de 11.6 assistências e apenas 5.1 turnovers (2.2 ASTS por TO), números que os colocam cabeça-a-cabeça com a maioria dos backcourts do Leste.

Além da dupla de guards, o Hornets conta com dois alas jovens e versáteis em Miles Bridges e PJ Washington – este último, um novato que certamente merecia mais atenção da grande mídia pela versatilidade e maturidade que tem demonstrado na atual temporada.

Em seu primeiro ano, o ala-pivô tem sobrevivido defensivamente e mostrado muita eficiência no ataque, espaçando a quadra com muito conforto em pick and pops e spot ups (38.5% com 3.6 tent. de catch and shoot por jogo) e exibido muito toque e fisicalidade ao redor do aro para punir mismatches no garrafão.

Ainda mais importante do que o conjunto de talento que a equipe já tem e a flexibilidade salarial para adicionar talento via free agent, porém, é o fato do Hornets – diferente da maioria dos times jovens da NBA – já ter estabelecido uma identidade de jogo.

Resiliente e ‘durão’, o time do treinador James Borrego tem compensado a falta de química nos dois lados da quadra com um esforço contínuo (9º em rebotes ofensivos) e disciplina decente (14º em pontos cedidos por turnovers).

Essa abordagem resiliente permitiu que o Hornets – projetado por muitos como possivelmente o pior time da temporada 19-20 antes de seu início, ocupe a 10ª colocação do Leste, à frente do badalado Hawks, de Trae Young.

Em seus anos de Los Angeles Lakers, Mitch Kupckack já mostrou que pode formar uma equipe campeã (foi bi-campeão como GM da franquia angelina em 08-09 e 09-10) e, mais do que isso, exibiu tremendo olho para avaliar talentos no draft.

É bom ficar de olho. O Hornets está na direção certa.