A cada ano que passa, a preferência de General Managers por atletas extremamente jovens e ainda distantes de estarem prontos para contribuir de forma consistente se torna cenário predominante na NBA.

Esse expediente é usado como aposta no ‘upside’ do prospecto, ou seja, em sua margem de crescimento nos aspectos físico, atlético e técnico do jogo.

Nesse cenário, é fundamental estarmos atentos aos ‘sinais de talento cru’ dados por alguns novatos ao longo da temporada a fim de identificar atletas que, embora ainda estejam em um estágio mais inicial de suas curvas de desenvolvimento, apresentam elementos suficientes para figurarem entre os melhores de suas classes no médio e longo prazo.

Com base nessas observações, apontamos os três rookies que mais nos chamaram a atenção quanto à margem de crescimento por meio da premiação simbólica ‘Troféu Upside’.

 

1) Sekou Doumbouya (Pistons)
Pos. no draft de 2019: 15º
Estatísticas na temporada: 6.4 PTS / 3.1 RBTS / 39% FG / 28.6% 3-PT com 2.6 tentativas por jogo
Análise: tratado como um projeto de longo prazo por, supostamente, estar ainda ‘cru’ no aspecto tecnico do jogo, o francês foi imediatamente alocado para a Liga de Desenvolvimento ao início da temporada.

Depois de 16 excelentes performances na G-League, no entanto, ficou muito claro que Doumbouya sobrava por ali e que tinha nível suficiente para atuar em um Pistons em reconstrução.

Ala longo (2,12m de envergadura e 2,03m de altura) e de atleticismo para lá de fluido com passadas largas e muita mobilidade para trocar de direção, Doumbouya mostrou que é muito mais do que um ‘perfil físico atraente’.

Seu trabalho de pés e a coordenação motora para executar movimentos avançados tanto de costas para a cesta, com giros e ‘dream shakes’ com tremendo fundamento, quanto atuando como slasher, abusando de eurosteps longos e sob controle.

A solidez dos fundamentos de Doumbouya foi ainda demonstrado por seu perfil ambidestro – tanto no âmbito do controle de bola quanto em cenários de finalizações, nos quais, alias, parece até mesmo ter uma preferência pela mão esquerda (ele que é destro) na hora de recorrer a ganchos curtos e bandejas.

Apesar de ter exibido inconsistência natural ao longo de seus 38 jogos pela equipe principal do Pistons, o jovem de 19 anos mostrou ter o que é preciso para seguir a trajetória de evolução que o projetou como escolha consensual de loteria nos ‘boards’ dos scouts no período pré-draft.

Não é todo dia que aparece um ala com tamanha atratividade no âmbito dos atributos físicos e, ao mesmo tempo, possui a coordenação motora e a consolidação dos fundamentos de Doumbouya.

Ter toda essa ‘base de apoio’ tornará muito mais fácil o desenvolvimento do jogador em algumas de suas principais lacunas – como:

– o ganho de massa muscular para absorver contato no garrafão e ‘cumprir’ seu potencial de defensor versátil capaz de marcar as posições 2, 3 e 4;

– a consistência no arremesso do perímetro – área na qual mostra potencial com bom equilíbrio na base e disciplina no uso do follow through, mas cuja a mecânica correta ainda não se traduz em ‘bolas dentro do aro’.

É por conta dessa ‘fundação sólida’ que projetamos, no médio prazo, o novato do Pistons como um daqueles casos em que, ao revisitar seu draft, você se assusta ao observar que não foi selecionado ao menos no top 10 de sua classe.

2) Jaxson Hayes (Pelicans)
Posição no draft de 2019:
Estatísticas na temporada: 7.5 PTS / 4 RBTS / 0.9 Toco / 66% FG / 3.1 LL (63% de aprov) / 17 minutos
Análise: que Hayes era um dos atletas mais especiais da classe ao mesclar tremenda agilidade com uma explosão vertical fora do comum em um corpo de 2,11m – todos os scouts sabiam antes da temporada.

O novato não só confirmou a projeção, como demonstrou que esse atleticismo raro se traduz de forma imediata em áreas cruciais do jogo da NBA contemporânea.

Dono de excelente agilidade lateral, Hayes foi um dos melhores pivôs de toda a NBA em situações de trocas no perímetro – não apenas usando seus braços longos (enverg. de 2,24m) para contestar arremessos a uma ‘distância conservadora’ para evitar a infiltração, mas literalmente pressionando o homem da bola no perímetro, qual fosse um ala.

Sua eficiência em situações de trocas defensivas no perímetro é ilustrada pelo fato do pivô ter impactado o aproveitamento médio dos adversários na linha dos 3-PT em 5% negativos.

Somada à essa versatilidade, claro, Hayes traduziu o impacto como protetor de aro – um de seus pontos fortes na Univ. do Texas, ao exibir sua ótima velocidade de reação e velocidade para sair do chão em situações de ajuda (2 tocos por 36 minutos em quadra).

No lado ofensivo, o novato de 20 anos de idade confirmou a projeção de ‘espaçador vertical e elite’ – e a complementou com excelente técnica e fisicalidade em seus corta-luzes, bem como ótimas mãos para dominar passes de alto grau de dificuldade, características que permitiram-lhe se colocar entre os mais efetivos da liga em situações de PnR (78.3th percentile), bem como liderar todos os novatos em pontos gerados a partir de seus corta-luzes.

Seus principais pontos negativos na temporada, a pouca resistência que apresentou contra pivôs tradicionais na defesa do post e na briga pelo rebotes, devem ser naturalmente corrigidos com o tempo, à medida que ele evolua nos treinos resistidos para adicionar massa muscular ao corpo hoje franzino (99kg).

 

3) Darius Bazley (Thunder)
Posição no draft de 2019: 23º
Estatísticas na temporada: 4.5 PTS / 3.7 RBTS / 0.7 Toco / 38.3% FG / 30% 3-PT com 1.9 tentativa por jogo /17.2 minutos

Análise: se você não é um torcedor ‘aficionado’, provavelmente nem notou a presença de Bazley, ala de 20 anos de idade, em quadra.

Recrutado 5 estrelas no board da ESPN em seu último ano do high school, o jovem optou por não disputar a temporada universitária a fim de focar exclusivamente em sua preparação para o draft – cenário que diminuiu sua presença no radar de scouts da liga.

Mais uma vez, no entanto, Sam Presti – GM do Thunder – parece ter mostrado seu ‘olho especial’ na identificação de talentos ao encontrar em Bazley um potencial ‘canivete-suiço’ para sua equipe nos dois lados da quadra.

Dono de 2,03m e uma envergadura de 2,14m, o novato mostrou conforto ao defender as posições 1, 2, 3 e 4 ao longo de sua temporada de estreia – passando 68% de seu tempo de quadra defendendo alas e outros 26%, marcando guards.

No ataque, apesar de cru em questões como arremesso e, claro, força física para se manter equilibrado em situações de contato (93kg), ele exibiu conforto para colocar a bola no chão e atacar seu adversário a partir do drible com segurança em suas mudanças de direção, bem como ótimos instintos para usar suas passadas largas e colocar pressão no aro com ou sem a bola na transição.