Discussões menos aprofundadas acerca dos aspectos táticos do basquete tendem a atribuir a eficiência defensiva de uma equipe à qualidade individual de seus jogadores nesse lado da quadra.

Basta, no entanto, lançarmos um olhar um pouco mais atento para as bases e fundamentos do jogo para perceber que os conceitos coletivos acabam tendo um peso muito maior nessa equação – sobretudo no que diz respeito ao controle do chamado ‘jogo de posse de bola’ e a habilidade de proteger o garrafão.

Quando falamos de controlar o jogo de posse nos referimos a minimizar: os pontos sofridos a partir de turnovers; os pontos sofridos em contra-ataques; e os pontos sofridos a partir de rebotes ofensivos.

O impacto do treinador Steve Clifford (Magic) nessas questões tem sido a principal razão pela qual Orlando (2º em pontos a partir de TO’s; 4º em pontos sofridos em contra-ataques; 1º em pontos sofridos em 2ª chances) tem se mantido competitivo na Conferência Leste – a despeito do talento questionável do elenco ano após ano. Por conta disso, dedicamos – em 28/05/2020, um segmento especial em nosso site a reconhecê-lo como um dos melhores treinadores da liga (clique aqui para ver).

Ao discutir seus principios defensivos, Clifford – que foi assistente de Stan Van Gundy (SVG) de 2007 a 2012, não esconde que segue se espelhando nos conselhos do novo treinador do Pelicans, quem ele chama de ‘gênio’.

“Eu ainda faço as coisas do ‘jeito Van Gundy'”, afirmou Clifford em entrevista concedida no dia 24/02/2019.

Pudera, SVG é – de fato – um baluarte do controle do jogo de posse e da proteção da área pintada e, por conta disso, jamais teve uma equipe sua fora do TOP 10 das melhores defesas da NBA.

Mesmo em seu último ano em um Pistons de pouquíssimo talento (2017-2018), Stan manteve sua equipe na 1ª posição em PTS sofridos em TO’s e segundas chances; na quarta em PTS sofridos em contra-ataques e em 10º em pontos no garrafão.

Curiosamente, as áreas na qual SVG talvez seja o ‘maior guru vivo’ do basquete mundial, foram as áreas mais ineficientes do Pelicans em 2019-2020 (29º em PTS a partir de TO’s; 28º em contra-ataques; 26º em segundas chances; 28º em PTS sofridos no garrafão).

Seus princípios defensivos por si só impulsionarão o time de New Orleans a um salto substancial nessas áreas – algo que, somado à qualidade defensiva individual de jogadores como Eric Bledsoe, Lonzo Ball, Steven Adams e Josh Hart deverão manter intacto o histórico de ‘Top 10 defensivo’ dos times de Van Gundy.

Ok, mas o quanto isso garante que Zion Williamson, Brandon Ingram e companhia estarão nos playoffs da dificílima Conferência Oeste?

Bom, comecemos pelo seguinte dado: das 10 melhores defesas da liga na temporada 2019-2020, apenas o Bulls não se classificou para os playoffs. O mesmo aconteceu no ano anterior, em 2018-2019, quando só o Grizzlies – entre todas as 10 melhores defesas – falhou em se classificar para a pós-temporada.

Nem Bulls ou Grizzlies, no entanto, possuíam a quantidade de talento e atleticismo do Pelicans para explorar oportunidades de transição criadas por suas eficiências defensivas.
No ano passado, mesmo ‘pegando a bola da cesta e cobrando o fundo bola’ em boa parte das posses (21º em eficiência defensiva), o Pelicans foi o 7º colocado em pontos anotados em cenários de transição (22.3 pontos por jogo).

Não é difícil projetarmos que, agora, recuperando a bola em posses vivas com mais frequência – jogadores como Ball e Bledsoe serão capazes de puxar ainda mais o ritmo do jogo para atacar contra defesas mal posicionadas, encontrando Zion Williamson como rim runner, Ingram correndo na ala ou ainda JJ Redick se posicionando no corner e/ou como trailler.

A disputa na Conferência Oeste será duríssima. Respeitamos, aliás, (embora discordemos) todos os argumentos que opinam que termos de ‘acúmulo de talentos’ o Pelicans está atrás de times como Mavericks e Suns.

O histórico defensivo de Stan Van Gundy – que inspirou e segue inspirando uma fornada bem-sucedida de treinadores como Erik Spoelstra (Heat), Steve Clifford (Magic) e Nick Nurse (Raptors), é, no entanto, suficiente para projetarmos o time de New Orleans na pós-temporada de 2020-2021.