Em geral, para que um jogador ‘exploda’ na NBA, isto é – atinja um nível de produtividade e até ‘status’ na liga que ainda não havia alcançado até ali, ao menos destes dois macro-cenários devem se apresentar:

ou ele usa a offseason para transformar em consistência algumas das áreas nas quais havia mostrado flashes/potencial até ali;

ou ele já está pronto para dar esse salto, mas só agora passa a ter a oportunidade de fazê-lo – o que nem sempre significa passar a ter um papel ‘maior’ em sua equipe, estando mais relacionado a executar um papel lhe permita explorar com mais frequência os pontos fortes de seu jogo.

No caso de Jerami Grant (Pistons), a ‘explosão’ que projetamos para ele durante a temporada 2020-2021 está apoiada no segundo cenário.

E, não. Não tem relação alguma com ‘colocar números inflados em um time mais fraco’. Fosse esse o caso, ele não estaria nessa série.

O ex-jogador de Syracuse já vem sendo, há pelo menos duas temporadas, um jogador de impacto na capacidade de sua equipe competir por vitórias – sobretudo a partir de sua característica mais marcante: a versatilidade para defender guards e alas com enorme eficiência (limitou guards a um aprov. de 39% – e alas a 42.6% – em 19-20).

Bem como para atuar como um dos melhores protetores de aro da NBA entre seus pares ‘combo foward’ (diminuiu o aprov. médio dos adversários em 3.8% na área restrita em 19-20 e em 6.5% em 18-19 – ocupando, respectivamente, a 3ª e a 2ª posição entre os jogadores que mais contestaram arremessos entre os elencos em que atuou).

Além do grande trabalho no lado defensivo da quadra, Grant utilizou seu salto importante como arremessador da linha dos 3-PT (39.2% de aprov. com 3.7 tent. em 18-19; e 38.9% com 3.5 tent. em 19-20) para se consolidar como um dos ‘role players’ mais relevantes de toda a NBA.

Até aí, nenhuma novidade. Qualquer torcedor que acompanha a NBA com um mínimo de afinco reconhece o valor de Grant nesses quesitos. Ele já é uma realidade – inclusive provado nos playoffs.

Mas seria sua excelência nesse papel complementar suficiente para justificar seu contrato de mais de US$ 60 milhões, válido por três temporadas, com o Pistons?
Minha resposta: ‘só’ isso – o que está claro e cristalino, não seria.

A questão é que, ao mesmo tempo que dava saltos importantes na defesa individual na linha dos 3-PT, Grant evoluia significativamente em outras áreas de seu jogo ofensivo. Áreas estas que só apareciam ao ‘olho nu’ em situações ocasionais – pelo fato de ter, até aqui, atuado majoritariamente fora da bola, sendo solicitado a converter bolas de 3-PT em cenários de spot up e a surpreender a defesa adversária com seu ótimo timing como cutter.

Agora – finalmente, depois de recusar um contrato idêntico oferecido pelo Nuggets e aceitar a proposta do Pistons com a justificativa de que ‘gostaria de ter um papel mais relevante no ataque’, o ala de 26 anos poderá mostrar à liga o tremendo valor como slasher que poderá – sim – fazer dele o vencedor do prêmio de ‘Jogador de Maior Evolução’ da liga em 2020-2021 e, mais importante que isso, colocar o Pistons na fotografia dos playoffs de sua conferência.

Extremamente longo (envergadura de 2,20m) e dono de excelente atleticismo, Jerami Grant mostra seu potencial para colocar pressão no aro adversário desde seu segundo ano no basquete universitário – quando acumulou média de 5.6 lances livres por partida pela equipe de Syracuse.

Ectomorfo que é, no entanto, levou alguns anos até traduzir sua eficiência no quesito atuando contra ‘homens formados’.

Como quase sempre acontece com esse tipo físico, por volta dos 25 anos de idade o corpo do novo jogador do Pistons finalmente atingiu sua maturidade – lhe proporcionando se tornar um dos alas mais efetivos da liga ao redor do aro, inclusive a partir de infiltrações criadas por seu subestimado controle de bola.

Nas últimas duas temporadas, Grant converteu média de 67% de suas finalizações na área restrita e, no ano passado, 49.6% dos arremessos antecedidos por suas infiltrações.
Para traçar um paralelo com um jogador com o qual se mostrará cada vez mais parecido a partir do próximo ano – Pascal Siakam (Raptors) convertera 64.2% de seus arremessos na área restrita e 44.2% dos chutes vindos de suas infiltrações.

Menos do que os números, já que há que se contextualizar o volume de tentativas (6.3 de Siakam contra 3.1 de Grant na área restrita; 10 de Siakam contra 3.2 de Grant nas infiltrações) e a atenção atraída por no último ano, o que nos dá confiança que Grant poderá seguir eficiente com maior volume e em áreas mais congestionadas são seus skills físicos e técnicos.

O ala do Pistons, como dissemos anteriormente, é ultra-longo e faz ótimo uso de sua envergadura para estender e fugir de contestações ao redor do aro. Além disso, combina um salto rápido – dificultando o timing dos ‘shot blockers’ – com ótimo controle corporal para se manter equilibrado em situações de contato.
Seus números de lance-livre irão subir substantivamente.

Para encerrar, é preciso salientar que sua habilidade de ‘explodir’ como slasher não se dará apenas ao acréscimo de toques na bola que terá em Detroit, mas também ao estilo de jogo implementado pelo treinador Dwane Casey durante sua trajetória na NBA.

Em suas últimas cinco temporadas na liga (três delas pelo Raptors e duas pelo Pistons), Casey impulsionou seu time ao ‘Top 10’ do ranking de infiltrações por jogo em quatro oportunidades. Em três delas terminando no top 5.

Ou seja, o novo treinador de Grant dará a ele uma ‘coleira longa’ para explorar seu jogo como slasher. Oportunidade que ele não desperdiçará.