Antes mesmo de vencer o controverso torneio de enterradas do fim de semana das estrelas no último mês de fevereiro, o ala Derrick Jones Jr. (Heat) era conhecido pela maior parte dos fãs e analistas da NBA como um ‘super-saltador que produz enterradas de tirar o fôlego’.

Essa reputação de ‘dunker’, no entanto, tende a desviar a atenção do público quanto à grande evolução que o jogador de 23 anos tem apresentado desde que chegou na liga – em 2016, saindo do status de ‘não-draftado’ para hoje se tornar um dos jogadores de confiança do técnico Erik Spoelstra.

Dono de um físico extremamente franzino (apenas 85kg, com 1,98m de altura) durante sua passagem pela Universidade de Las Vegas – Jones Jr. surpreendeu o círculo do basquete ao se declarar para o draft da NBA após apenas uma temporada no college, mesmo estando longe de poder competir na liga sob o ponto de vista físico.

O ala pagou um previsível preço por sua ousadia ao sair sem sequer ser selecionado no draft de 2016 e tendo de – desde então – cavar seu espaço no ‘underground’ da NBA, passando suas três primeiras temporadas (duas no Suns e uma no Heat) sem sequer assinar um contrato garantido.

O trabalho duro e a confiança em si mesmo, porém, o permitiu em 2019-2020 – 10kg mais forte (hoje tem 95kg) – finalmente ganhar seu primeiro contrato garantido (ainda que mínimo em um valor de 1.5 milhões por uma temporada) e, mais importante que isso, seu espaço na rotação regular do competitivo Heat.

Ainda extremamente inconsistente como arremessador (27% de aprov. com média de 2.5 tent. dos 3-PT em 19-20), atributo que o acompanha desde os tempos de high school, Jones Jr. conquistou cada um dos 24.5 minutos por jogo que acumula na temporada a partir de sua tremenda atuação no lado defensivo da quadra e o ótimo desempenho como slasher em cenários de transição.

Como defensor individual, o ala tem aproveitado seu ganho de força para manter posição contra adversários – deixando de ser movido facilmente pelo contato físico, podendo finalmente utilizar a excelente envergadura de 2,13m para contestar arremessos.

A combinação tem lhe permitido acumular números expressivos na defesa individual: ele tem impactado em 6.3% negativos o percentual de acerto dos adversários na linha dos 3-PT e em 5.4 no total dos arremessos de quadra – limitando-os a aproveitamentos de 30% e 40.1% nas respectivas áreas.

Essa performance na defesa individual se somou a algo que Jones Jr. tem feito bem desde os tempos de UNLV – a habilidade de usar os braços longos e o atleticismo para ser uma força disruptiva fora da bola.

Mesmo sendo o nono colocado no elenco em termos de minutagem, o ala é o terceiro jogador de Miami com mais desvios por jogo – com 2.1, e se torna ‘vice-líder’ da categoria na projeção por 36 minutos, com 3.1 por jogo, ficando atrás apenas de Jimmy Butler – que te 3.6.

Jones Jr. é ainda o segundo no elenco no âmbito de ‘contestações por jogo’, com 7.1.

Sabendo-se ainda pouco desenvolvido no ataque em skills fundamentais como arremesso e controle de bola, o ala aceita o papel de ‘slasher’ fora da bola e o desempenha com qualidade ao utilizar seu atleticismo fora dos gráficos para colocar pressão no aro – sobretudo em situações de transição.

O jogador ocupa espaço no top 10 entre os melhores finalizadores da liga em contra-ataques (97.2 percentile) ao produzir expressivos 1.51 pontos por posse em que é utilizado nessas situações.

Além do atleticismo para chegar até o aro e explodir ao seu redor, Jones tem se valido do ganho de força física para fazer bom trabalho absorvendo contato no garrafão – característica ilustrada por seu aproveitamento de 73.7% da média de 3.3 tentativas na área restrita e das sólidos 2.2 idas à linha do lance livre por partida.

Ainda jovem – aos 23 anos – e com o biotipo ‘ectomorfo’, a tendência é que Jones Jr. siga se desenvolvendo fisicamente e, no médio prazo, possa se tornar um defensor ainda mais versátil, capaz de defender as posições 2, 3 e 4, em uma curva de desenvolvimento semelhante pela qual passou o ala Jerami Grant (Nuggets).

A questão que será determinante para que ele possa, tal como Grant, se tornar um jogador de ‘calibre para ser titular’ – porém, será seu arremesso de 3-PT, área na qual mostrou flashes, mas ainda está longe de ser minimamente confiável.