Reconhecido mais pelas enterradas espetaculares do que por sua produção mais holística na quadra de basquete, Aaron Gordon (Magic) – de 24 anos, raramente é citado nas discussões em torno dos jogadores mais promissores da NBA.
Apesar de suas estatísticas não chegarem a impressionar, o ala-pivô tem mostrado evolução técnica o suficiente para – somada ao seus atributos físicos de elite – fazer dele um elemento-chave em um contender da NBA.
Na nossa visão, o sistema ofensivo do Orlando Magic tem sido a principal razão para a subvalorização de Gordon.
Pense nos jogadores mais atléticos da NBA. Agora tente lembrar a frequência com que você os assiste atacar o garrafão adversário na quadra aberta…
De Giannis Antetokounpo a Ben Simmons, passando por Pascal Siakam, jogadores que misturam velocidade, atleticismo e boa força física para abrir espaço e absorver contato físico no caminho da cesta tendem a ter na transição uma parte significativa de seus repertórios ofensivos. Em geral, ao menos 1/5 do total de participações no ataque.
Antetokounmpo, por exemplo, concentra nos contra-ataques 26.8% de suas jogadas ofensivas. Já Simmons e Siakam concentram na transição respectos 30.1% e 21.7% de seus repertórios.
Gordon – um dos jogadores mais atléticos de toda a NBA e que por conta da enorme evolução que teve como ball handler desde sua chegada na liga pode ser um pesadelo dos adversários tanto iniciando contra-ataques quanto acompanhando como ‘finisher’, tem na transição apenas 16.7% de seu volume ofensivo (2.6 posses de bola por jogo).
Esse cenário se deve ao fato do Magic ser uma das equipes mais comprometidas com o jogo de meia quadra na NBA atual (26º no ranking de pace).
Então bastaria que Gordon atuasse em um sistema de ritmo mais veloz pra que ele ‘explodisse em definitivo’?
Isso ajudaria, mas existem outros elementos do sistema do Magic cujo casamento com o estilo de jogo do ex-jogador da Universidade de Arizona está longe de ser o ideal.
Com um sistema, de certa forma, ‘old school’ do excelente treinador Steve Clifford, Orlando adota o jogo ‘inside-out’ fazendo a bola chegar no garrafão, a partir do post, para – a partir de dobras e ajudas da defesa adversária – retornar aos arremessadores no perímetro.
Essa filosofia, somada ao fato da equipe ser uma das piores da NBA na linha dos 3-PT (6º pior em aproveitamento; 7º pior em bolas convertidas), diminui significativamente o espaçamento para o ‘roller’ no jogo de dupla e para infiltrações individuais.
Como resultado desse cenário, Gordon – um dos melhores finalizadores da NBA, 72th percentile como roller em PnR e 67.1% de aproveitamento em suas finalizações na área restrita graças à combinação do atleticismo fora dos gráficos com muita força física e controle corporal, é pouquíssimo explorado nessas situações.
A função de ‘roller’ no jogo de dupla compõe apenas 2.5% (0.4 posse por jogo!) do repertório do ala-pivô. Já seu volume de arremessos na área pintada se limita a 4.4 por jogo – muito menos que jogadores como Julius Randle (6.5) e Pascal Siakam (6.7), ambos menos eficientes que ele.
Somando o ‘estrago’ que Gordon poderá fazer em um sistema de jogo mais condizente com os pontos fortes de seu ‘skillset’ a sua já excelente presença ofensiva, passamos a ter uma noção mais precisa de seu potencial como peça-chave em um contender na liga.
Ágil e forte o suficiente para defender as posições 2, 3 e 4, bem como de boa envergadura de 2,13m – Gordon oferece tremenda versatilidade para seu treinador e se coloca como uma opção mais que viável para ser utilizado como o ‘stopper’ de sua equipe, ou seja, o atleta designado para defender o principal jogador do adversário.
Em 2019-2020, o ala-pivô colecionou ‘nomes pesados’ na lista dos 7 jogadores que passou mais tempo defendendo individualmente e, no apanhado geral, teve ótimos resultados.
Confira:
1) Jimmy Butler (Heat)
Quantidade de posses de bola: 76.8
Aproveitamento do adversário: 6-10 FG
2) Ben Simmons (76ers)
Quantidade de posses de bola: 73.7
Aproveitamento do adversário: 6-11
3) Juancho Hernangomez (Timberwolves)
Quantidade de posses de bola: 67.8
Aproveitamento do adversário: 4-12
4) Giannis Antetokounmpo (Bucks)
Quantidade de posses de bola: 61.5
Aproveitamento do adversário: 8-21
5) Luka Doncic (Mavericks)
Quantidade de posses de bola: 60.8
Aproveitamento do adversário: 5-16
6) Lebron James (Lakers)
Quantidade de posses de bola: 56.4
Aproveitamento do adversário: 6-17
7) Kawhi Leonard (Clippers)
Quantidade de posses de bola: 53.9
Aproveitamento do adversário: 5-11