Aos 21 anos, armador superou o ‘desaparecimento de seu arremesso’ para ter sólida temporada como titular do Orlando Magic – equipe que figura entre os classificados para os playoffs da Conferência Leste

 

Nem Jayson Tatum (Celtics), nem De’Aaron Fox (Kings), nem Lonzo Ball (Lakers)… Era Markelle Fultz (Magic) o jogador mais talentoso do draft de 2017 e sua performance durante a temporada 2019-2020 ilustrou essa afirmação.

Claro que, se não recuperar a mecânica natural que fez dele um arremessador de elite nos tempos de college (41.3% dos 3-PT com média de 5 tentativas por jogo) – antes de lesionar o ombro direito, o jovem ainda de 21 anos jamais irá atingir o status de superestrela que parecia destinado a ele.

Mas somente o fato de ter contribuído em um bom nível pelo Magic sem esse elemento crucial de seu jogo indica que Fultz tem ainda um futuro brilhante na NBA.

Era 22 de junho de 2017 quando o hoje scouter da ESPN Americana – Mike Schmitz, começou de maneira enfática sua análise sobre o então armador da Universidade de Washington.

“Fultz é um armador de franquia, futuro allstar e um jogador que qualquer organização pode construir em volta”, afirmou.

Hoje é fácil – embora cedo, dizer que o analista errou por muito sua avaliação, se considerarmos que Fultz pouco jogou em suas duas primeiras temporadas pelo 76ers e, em seu terceiro ano – primeiro com o Magic, teve um temporada boa, mas só boa.

Se olharmos um pouco mais de perto as atuações e estatísticas de Fultz na atual temporada, no entanto, podemos ter uma noção aproximada do estrago que aquele jogador prestes a ser selecionado na primeira colocação de sua classe faria caso não tivesse ‘desaprendido a arremessar’ após a lesão que sofrera no ombro.
Ou melhor, o estrago que o terceiroanista fará – caso seja capaz de recuperar minimamente sua habilidade de chutar a partir do drible.

Mesmo atuando contra que abusaram do direito de ir para ‘baixo’ de screens e lhe dar alguns passos de distância – se concentrando exclusivamente em tirar suas linhas de infiltração, Fultz foi eficiente em suas infiltrações.

Utilizando seu excelente controle de bola e sua subestimada força física (91kg) para chegar aos lugares que queria em quadra – a despeito da desvantagem de não representar ameaça para os adversários como shooter, ele usou sua tremenda envergadura de 2,06m para finalizar sobre defensores menores e ao redor de protetores de aro.

Seu aproveitamento de 62.1% na área restrita com o bom volume de 4.4 tentativas por jogo nessa região superou o de jogadores reconhecidos pela habilidade de finalizar ao redor do aro – tais como Damian Lillard (57.5%), Donovan Mitchell (61.1%), Jayson Tatum (59.3%), Ja Morant (57.5%) e Shai Gilgeous-Alexander (57.4%).

A habilidade de pisar na área pintada com frequência (12 infiltrações por jogo, mesmo número de Ben Simmons e mais do que slashers como Eric Bledsoe – 11.9, Dennis Schroder – 11.7, e Kemba Walker – 11.3) e a ameaça constante como ‘finisher’ no garrafão’ o permitiu bagunçar defesas na meia quadra, atraindo dobras e liberando seu jogo de passe.

Cestinha de alto nível durante toda sua carreira pré-NBA (23.2 PTS, 47.6% de aproveitamento dos arremessos de quadra nos na Univ. de Washington), Fultz sobreviveu às limitações como pontuador ao demonstrar muita visão de jogo e cuidado com a bola – como um armador mais tradicional.

Retorno do arremesso que ‘desapareceu’ desde a lesão sofrida no ombro direito será chave para que Fultz alcance seu status de estrela na NBA

Ao longo da temporada 2019-2020, suas 5.2 assistências do armador vieram acompanhadas de apenas 2 turnovers por jogo – lhe conferindo uma média de 2.6 passes para cesta para cada desperdício de bola.

A eficiência como playmaker se torna ainda mais significativa se considerarmos a carência de arremessadores capazes de capitalizar as infiltrações do jovem em situações de ‘drive and kick’.

Na análise de Mike Schmitz que pontuamos no início do texto, o scouter pontuou que Fultz era ‘melhor utilizado com a bola nas mãos e arremessadores em seu entorno’ – ambiente que o Magic, 24º colocado da liga em arremessos de 3-PT convertidos por jogo (10.9) e em percentual de aproveitamento na longa distância (34.2%) certamente não lhe ofereceu.

A inteligência para utilizar seus braços longos como força disruptiva no lado defensivo da quadra foi outro aspecto importante demonstrado pela primeira escolha do draft de 2017 na atual temporada.

Mantendo a envergadura de 2,08m ativa e usando seus instintos naturais para antecipar jogadas, Fultz foi o segundo do elenco do Magic em desvios por jogo – com 2.2, ficando atrás apenas do excelente Jonathan Isaac (3.3) no quesito.

Foi ainda o quarto em contestações de arremesso por partida – com 6.3, sendo naturalmente superado pelos pivôs Nikola Vucevic (10.4), Mo Bamba (6.7) e, de novo, Isaac (8.1).

Individualmente, no entanto, ele demonstrou a inexperiência ao ser pego mal posicionado – frequentemente com os joelhos poucos flexionados para reagir ao movimento do adversário, erro de fundamento que facilitou que seus adversários o batessem a partir do drible com certa facilidade, apesar da boa agilidade lateral que possui.

Ainda aos 23 anos de idade – Fultz terá, no entanto, muito tempo para crescer nessa e em outras áreas. Sobretudo se considerarmos que, até a transferência para Orlando, ele não estava atuando com frequência a cerca de dois meses.

Seu teto de ‘estrela’ dependerá de sua recuperação como arremessador – área em que tem mostrado flashes com aceitáveis 73% de aproveitamento da linha do lance-livre, 40.4% na média distância e 41.7% na totalidade de seus pullups (drible-parada-e-chute).

Mas, ainda mais importante que isso, é que ao longo de 2020-2021, Fultz pôde provar para ele mesmo que é talentoso o suficiente para se tornar um titular acima da média a despeito disso.