Embora a explosão do ala Jayson Tatum (Celtics) após sua seleção para o jogo das estrelas tenha, justificadamente, atraído toda a atenção da comunidade do basquete para o ex-jogador de Duke, é preciso destacar também o tremendo ano que tem tido o também ala Jaylen Brown (Celtics) – de 23 anos de idade.

Iniciando a temporada sob uma certa pressão para ‘justificar’ um contrato de US$ 109 milhões – válido por 5 temporadas, o jovem respondeu o desafio ao se tornar um dos legítimos alas ‘two-way’ (aqueles que contribuem em alto nível nos dois lados da quadra) da NBA.

Depois de mostrar flashes como defensor individual nos três primeiros anos da carreira, o ala se tornou consistente o bastante para se separar como o principal defensor da equipe titular de Boston.

Todas as noites, Brown foi designado por Stevens para defender o principal jogador do adversário no início da partida fosse ele um ala-armador, um ala ou um ala-pivô.
Tamanha versatilidade pode ser observada a partir de um olhar aproximado aos números de seus matchups na temporada.

No acumulado das duas partidas de sua equipe contra o Mavericks, Brown passou 29.5 posses de bola defendendo Kristaps Porzingis – duelo em que levou a melhor ao limitar o letão a um aproveitamento de 3-9 nos arremessos de quadra.

No outro extremo – em partida contra o Bulls, o ex-jogador da Universidade da Califórnia passou 32.6 minutos defendendo Zach Lavine – em quem fez trabalho sólido o limitando a 44% de aproveitamento.

Tamanha versatilidade defensiva se deve majoritariamente a seu excelente perfil físico. Brown é atlético em todos os sentidos. É explosivo em linha reta. Mostra boa agilidade lateral. Tem uma força natural em seus membros inferiores e um baixo centro de gravidade.

Além, é claro, de ter números ‘de um ala criado em laboratório para a NBA contemporânea’: 2,01m de altura, envergadura de 2,13m e 100kg.

Seu bom trabalho na defesa individual foi complementado por um QI defensivo acima da média – aspecto que, geralmente, recebe menos atenção que deveria nas análises sobre Brown.

O jovem mistura solidez e disciplina para estar bem posicionado no conceito coletivo com ótimo timing para antecipar jogadas – atributo que faz dele o terceiro do colocado do elenco em desvios por jogo, com média de 2.2 (Brown é o segundo em contestações, com 7.7 e o primeiro em ‘bolas divididas’ recuperadas).

Essa consistência ofensiva veio acompanhada de um salto importante também no âmbito dos skills ofensivos.

 

Talvez o mais importante deles foi sua melhora como ball handler. Brown sempre teve o atleticismo necessário para ser um slasher de elite na liga, mas lhe faltava a habilidade de criar suas próprias infiltrações, sobretudo na meia quadra.

Apoiado nessa evolução, o jovem saltou das 5.1 infiltrações por jogo que acumulou em 18-19, para 8.6 por partida na atual temporada – fator que o impulsionou pular de 2.7 para 4.3 em sua média de lances livres tentados e assumir a liderança no elenco em cestas anotadas na área restrita.

Tremendo finalizador desde sua chegada na liga – muito por conta sua habilidade de se manter equilibrado após o contato físico (muitas vezes iniciado pro ele), Brown manteve a eficiência, mesmo ante o maior volume.

Dentre os três principais cestinhas da equipe, Brown é aquele que melhor coloca pressão no aro adversário – convertendo 65.5% de suas tentativas na área restrita e 45.7% dos chutes no garrafão fora do semicírculo. Tatum e Kemba Walker, por exemplo, converter – respectivamente 59.3% e 55.8% na área restrita e 37.2% e 26.7% fora do semicírculo.
Como cereja do bolo de uma evolução que, na maioria das temporadas, lhe colocaria como um dos favoritos ao prêmio jogador que mais evoluiu na temporada – Brown mostrou ainda evolução importante como arremessador.

Brown matou 41.6% de suas tentativas de suas tentativas para 3.9 tentativas de 3-PT em situações de catch and shoot por partida (34.3% em 3.3 tent. em 18-19), se tornou mais consistente na linha do lance-livre (saiu de 65.8% para 73.6%) e adicionou ainda o interessante elemento do jogo de meia distância.

Seu potencial atlético e a ameaça que representa como slasher, Brown força seus defensores a – na maior parte do tempo – oferecê-lo o arremesso de meia distância, a fim de diminuir seus ângulos de infiltração.

Como resposta para essa abordagem, o ala do Celtics manteve a ‘defesa honesta’ com seus pullups na meia distância, onde converteu 42.9% de suas tentativas.
Essa habilidade de criar o próprio chute permite que ele ‘transcenda’ a caixa em que se colocam a maioria dos alas ‘two-way’ da NBA – o rótulo do 3 and D, e faz dele hoje um legítimo candidato a allstar e a terceiro membro de um ‘Big 3’.