No dia 10 de outubro de 2019, semanas antes do início da atual temporada, o treinador Erik Spoelstra (Heat) não hesitou em dizer que Duncan Robinson ‘era um dos melhores arremessadores do planeta’.

A declaração – embora forte – não causou sequer polêmica ou muita excitação entre os torcedores do Heat. Passou, simplesmente, desapercebida pela falta de notoriedade do nome do ala de 25 anos nos círculos da liga.

Hoje, sete meses depois, é difícil encontrar alguém que discorde do treinador bicampeão da NBA pela franquia de Miami.

Titular em 60 dos 65 jogos de sua equipe na temporada, Robinson se consolidou como a principal opção de espaçamento de quadra do elenco – arremessando um altíssimo volume de 8.4 bolas de 3-PT por jogo, montante que o coloca em décimo terceiro entre os jogadores com maior média de chutes de fora por partida.

No top 20 das tentativas, o ala foi o mais eficiente – com 44.8% de aproveitamento.

Nem todos os chutes são criados da mesma maneira, porém. Alguns jogadores recebem a incumbência de cria-los frequentemente a partir do drible. Outros são o ponto focal da defesa adversária – cujo ‘plano de jogo’ passa a ser pressiona-los na linha dos 3-PT.

Robinson pertence ao segundo grupo. O daqueles que têm de se dispor a arremessar bolas mesmo quando contestados – pois dificilmente conseguirão muitas oportunidades desmarcados.

Em entrevista concedida ao podcast do ala-armador JJ Reddick (Pelicans) – em quem o ala do Heat se espelha, Robinson afirmou que Spoestra, inclusive, o encoraja a arremessar essas bolas mais ‘contestadas’, dizendo a ele que – “o que para alguns é um chute ruim, para você é um bom arremesso. Você vai prejudicar o time se não arremessar nessas situações”.

E assim o ala o fez. 26.8% de seus arremessos de 3-PT vieram em cenários que a NBA classifica como ‘apertados’ (tight) – quando o defensor está entre meio metro e 1.2 metro de distância do shooter.

Mesmo nesses cenários, Robinson matou cintilantes 40.6% de uma média de 2.5 tentativas longas. Eficiência que, contando todas as tentativas dos integrantes do ‘top 20 em tentativas’ – as contestadas e as não contestadas, só foi superada por: Danilo Gallinari (Thunder) – 40.9%; Davis Bertans (Wizards) – 42.4%; e Karl Anthony-Towns (Timberwolves) – 41.2%.

Sua capacidade de converter bolas contestadas vem de sua excelente técnica para subir equilibrado utilizando os mais diferentes trabalhos de pés: seja fincando os pés a partir de um ‘hop’ (um salto pequeno com os dois pés, caindo com ambos no chão antes de subir para o chute), ou alinhando o tronco em direção à cesta enquanto gira o corpo utilizando a técnica do 1-2 – fundamento que executa tanto o iniciando com o pé direito quanto com o esquerdo.

Esse bom fundamento no ‘1-2’ e a habilidade de alinhar o tronco segundo antes de iniciar o movimento do chute é o que lhe tem permitido evoluir como shooter em situações de screen – área na qual tinha problemas nos tempos de Universidade de Michigan, mas que – na atual temporada – produziu 1.09 por posse de bola, se colocando entre os melhores da liga no quesito (76.5th percentile).

 

Robinson atuou em Michigan por três temporadas – a maior parte do tempo saindo do banco de reservas

Tamanha evolução arremessando em movimento complementou sua expertise: a eficiência ‘paradinho esperando a bola’ em spot-ups, situação em que produziu 1.22 ponto por posse de bola. Uma produção de elite (90th percentile) para alguém que a 33% da utilização ofensiva adveio dessa situação.

Apesar de não ser necessariamente uma especialidade sua, sophmore tem ainda mostrado confiança para criar o próprio chute a partir de um ou dois dribles na saída de handoffs – sobretudo na parceria com Bam Adebayo.

O volume ainda é tímido – 1.2 tentativas na temporada, mas a eficiência é a usual também nos pullups: 39.2% de aproveitamento!

Não há, em suma, mais dúvidas que Spoelstra estava certo no início da temporada. Robinson, sim, um dos melhores arremessadores do mundo.