Marcado por ter sido o primeiro colocado de um draft em que Luka Doncic (Mavericks)-estrela de impacto imediato – foi apenas o terceiro selecionado, o pivô Deandre Ayton (Suns) tem feito uma espécie de ‘trajetória fora do radar’ rumo a seu posto de estrela da NBA.

Na última temporada, o jovem de 21 anos – que havia sido criticado pelo desempenho defensivo como novato, não apenas mostrou evolução ‘natural’ na área, mas se colocou entre os melhores da pivôs defensivos da liga.

Utilizando a maior maturidade tática para se posicionar melhor nas rotações defensivas e a excelente envergadura de 2,27m, Ayton foi um dos melhores protetores de aro da NBA em 2019-2020 – ocupando a terceira colocação no ranking de contestações por jogo com impressionantes 16.2 por partida, apenas 0.2 abaixo do segundo – Rudy Gobert (Jazz). Mas bem mais distante do líder, Brook Lopez (Bucks) que contestou 19.4 chutes por jogo.

Diferente dos dois companheiros de ‘pódio’ no desafio a arremessos na área pintada, o ex-jogador da Universidade de Arizona, soma sua eficiência nas trincheiras (reduziu o aproveitamento dos adversários em 7.6% em arremessos a no máximo 1.2 metro da cesta) a uma mobilidade acima da média no perímetro.

Dono de muita coordenação motora e boa agilidade, Ayton se mostra confortável movendo os pés no perímetro contra alas – e o faz de maneira não-convencional ao não oferecer espaço extra para encorajar seus adversários arremessem a bola, ainda que poucos contestados, no lugar de tentar batê-lo a partir do drible.

Seus números contra alguns dos melhores alas da liga impressionam.

Mas posses em que defendeu Giannis Antetokounmpo (Bucks), Kawhi Leonard (Clippers) Luka Doncic (Mavericks) e Jayson Tatum (Celtics) – Ayton os limitou a aproveitamentos respectivos de 1-5, 2-9, 2-8 e 2-6 nos arremessos de quadra.

 Além de excelente protetor de aro, Ayton tem mostrado versatilidade para defender no perímetro

Sua efetividade no perímetro é demonstrada, de maneira mais genérica, pelo impacto negativo de 3.3 pontos percentuais que teve no aproveitamento médio de seus adversários na linha dos 3-PT.

Tudo isso porque, apesar de tão forte e pesado quanto os principais ‘pivôs-tradicionais’ da NBA atual, ‘DA’ possui aquilo que os scouters mais antigos chamavam de ‘pés de bailarina’ – ou seja, um trabalho de pés ágil e ‘leve’.

São esses mesmos pés de bailarina, aliás, que o coloca no topo também no ranking dos ‘rim runners’ da NBA.

A combinação de uma corrida fluida com suas passadas largas e excelentes mãos para dominar passes em movimento, Ayton foi um pesadelo para adversários na transição ofensiva em 19-20, produzindo 1.38 ponto por posse de bola em que foi acionado em cenários de transição (90.6th percentile!).

Para se ter uma ideia, nomes como Anthony Davis (Lakers) e Clint Capela (Hawks) – dois dos melhores ‘rim runners’ da liga nos últimos anos – produziram respectivos 1.35 e 1.32 ponto por posse.

Apesar de ‘correr a quadra como uma gazela’, Ayton não pode – sob nenhum aspecto – ser considerado um jogador ‘soft’, que tem dificuldades para batalhar com pivôs mais físicos da liga.

Competitivo, o sophmore não hesitou em espalhar seus 113kg na luta por posição em ambos os lados da quadra e contou com a ajuda de seus instintos naturais para antecipar a trajetória da caída da bola após tocar no aro para se fixar também no grupo dos melhores reboteiros da liga.

Seu posicionamento entre os melhores do quesito, no entanto, nem de longe tem como principal razão sua média de 12 rebotes por jogo, número que o coloca em sétimo na categoria entre todos os atletas da NBA.

O dado que realmente conta a história de sua dominância na tábua é o dos 5.3 rebotes contestados por jogo (4º no quesito), em cenários nos quais tem de, realmente, usar sua fisicalidade para ganhar posição interna em disputas diretas com o adversário.

Seu nível de atividade nos rebotes se exibe também em seu impacto na conquista de novas posses de bola para sua equipe.

Só Andre Drummond (Cavaliers) – com 4.4, e Clint Capela – com 4.3 pegaram maior média de rebotes ofensivos do que Ayton, de 4.1, na última temporada.

Não bastasse tamanha produção nos principais papéis exigidos de um pivô no jogo contemporâneo – versatilidade defensiva e proteção de aro, impacto na tábua de rebotes e ser capaz de correr a quadra, Ayton mostrou ainda excepcional profissionalismo e maturidade para se encaixar em um sistema ofensivo que não tem no pivô um ponto focal.

O jovem que desde os tempos de high school impressionava pelo toque ao redor do aro e a capacidade de criar o próprio chute em situações de ‘face-up’, pouco teve a oportunidade de fazê-lo em 19-20.

Apenas 3.3% de seus arremessos vieram em cenários em que ele driblou a bola três ou mais vezes antes do chute – enquanto 75.4% deles em cenários de ‘catch and finish’, nos quais ele nem sequer colocou a bola no chão.

Embora não tenha tido a oportunidade de demonstrar sua dominância também no lado ofensivo da quadra, Ayton mostrou sua versa versatilidade ao atuar como um verdadeiro ‘finalizador’ – utilizando sua mobilidade e atleticismo para explodir em direção ao aro também na meia quadra, sobretudo na saída de pick and rolls.

Como ‘roller’ no jogo de dupla, o jovem produziu a sólida média de 1.16 ponto por posse – número acima da média da liga (63.3th percentile) e muito semelhante ao de jogadores como Bam Adebayo (Heat) – 1.17, e Rudy Gobert – 1.19.

Tamanha versatilidade o permitiu anotar os sólidos 19 pontos por jogo com 54.8% de aproveitamento nos arremessos de quadra – mesmo sem receber as oportunidades que um sistema ofensivo com mais ênfase no jogo de post médio lhe daria.

Absolutamente completo – é questão de tempo para que Ayton seja reconhecido pelo ‘grande público’ como uma verdadeira estrela na liga e, a continuar nesse ritmo de desenvolvimento, o melhor de sua posição.