Embora a NBA seja considerada majoritariamente uma liga onde ‘jogadores decidem’, é inegável o fato que alguns treinadores são capazes de fazer grande diferença – transformando em candidatos aos playoffs equipes que seriam ‘tankers’ na mão de outro técnico.

Apesar de pouco mencionado em discussões sobre a ‘elite dos treinadores da liga’, o nome de Steve Clifford (Magic) inegavelmente pertence a esse grupo seleto e merece mais reconhecimento dos torcedores e da cobertura midiática como um todo.

Enquanto grande parte da NBA caminha para um basquete de pouca estrutura tática na meia quadra – com a maior exploração possível de cenários de transição e a aposta na habilidade das estrelas criarem para si mesmos e atraírem dobras do adversário em situações de ISO, as equipes de Clifford seguem apostando naquilo que os treinadores chamam de ‘execução’.

Desde sua primeira temporada como ‘Head Coach’, em 13-14 – pela equipe do Charlotte, àquela altura ainda chamada de ‘Bobcats’, o treinador colocou sua equipe no TOP 10 da liga no quesito assistência por turnover.

Melhor do que isso, seus times ocuparam o TOP 5 da estatística em quatro de suas sete temporadas como treinador – ficando em duas oportunidades na segunda colocação da liga (13-14 e 16-17).

Para fazê-lo, o treinador monta um sistema ofensivo ancorado em um dos fundamentos clássicos do basquete – o jogo ‘inside-out’, invariavelmente mantendo um jogador ‘posteado’ no garrafão e construindo ‘contra movimentos’ de acordo com a postura defensiva do adversário, utilizando constantes cortes sem a bola de seus armadores e corta-luzes no lado oposto da quadra.

Alguns números da atual temporada do Magic ilustram seus princípios ofensivos bem estruturados descritos no parágrafo acima.

Em 2019-2020, a equipe de Clifford é a quinta colocada em post ups por jogo (11.6), a sexta em toques no cotovelo do garrafão (13.4), a quinta em toques na área pintada (25.1) e a 7ª em cortes sem a bola.

Nikola Vucevic é o nono jogador na NBA que mais recebe toques na bola em situações de post-up

 

Sua estrutura tática bem consolidada, somada à eficiência da execução que tem conseguido de seus jogadores (5ª em AST/TO com 1.9), diminui drasticamente a dependência do Magic da criação individual de seus jogadores (30º em ISOs com apenas 3.1% do volume ofensivo utilizados em cenários de um contra 1).

Nas mãos de outro treinador – o Magic certamente estaria sofrendo mais por não ter no elenco algum guard ou wing que, a essa altura de seu desenvolvimento, possa criar um arremesso de qualidade para si mesmo a partir do drible.

Em suma, a receita de Clifford tem seguido o mesmo princípio daquela que Greg Popovich tem aplicado por tantos anos no San Antonio Spurs – utilizar a execução e a estrutura para se manter competitivo independente de um possível gap de talento que possa ter em relação aos seus adversários (nos últimos 6 anos, Spurs ocupou o Top 5 no ranking de AST/TO da liga em 5 oportunidades e, em 17-18, na exceção, foi o 6º).

Além de maximizar o talento de seu elenco com o jogo coletivo e de ‘não bater a si mesmo’ minimizando erros, as equipes de Clifford fazem também excelente trabalho ao limitar as oportunidades dos adversários no outro lado da quadra.

Para fazê-lo, o treinador busca – em primeiro lugar – maximizar o tempo de sua equipe com a bola nas mãos (média de 21.3 segundos gastos por posse e 26º em pace em 19-20).

Seu segundo ponto de ênfase é aplicar um sistema defensivo onde seus jogadores devem seguir uma estrutura de ‘pouco risco’ – ou seja, priorizar o fato de estar bem posicionado a fim de não permitir cestas fáceis à tentação de usar seu atleticismo para ‘pressionar’ e, com isso, ceder buracos para backdoors e linhas de infiltração.

Antes de mostrarmos os números que ilustram os impactos dessa filosofia no desempenho defensivo do Magic, é necessário contextualizar que – em seu elenco – Orlando conta com atletas ‘tentadores’ para adotar uma postura mais agressiva, casos de Aaron Gordon, Jonathan Isaac e Markelle Fultz.

A ideia de Clifford, no entanto, é clara: com a falta de poder de fogo ofensivo que temos, nossa maior chance de competir é não entrar em uma competição ‘de peito aberto’.

Tal como no lado ofensivo da quadra, a filosofia defensiva de Clifford é construída ‘de dentro para fora’. Primeiro protege-se contra pontos na área pintada, depois se enfatiza as bolas de 3-PT na zona morta e ‘convive-se’ com closeouts por vezes atrasados nas bolas de 3-PT mais longas.

Oitava melhor defesa da liga em 18-19 e a décima em 19-20, o Magic foi apenas o 27º em desvios em 18-19 e é o 21º na atual.

Em contrapartida, é o 7º colocado em menos pontos concedidos no garrafão – isso sem possuir um protetor de aro de elite, e – o fato de priorizar a volta para a quadra de defesa no lugar de atacar a tábua ofensiva – o permite ser o 3º melhor em pontos sofridos em contra-ataques.

A disciplina e a boa execução ofesniva, dá aos adversários de Orlando apenas 14 pontos a partir de turnovers por jogo. Melhor índice de toda a NBA em 19-20.

Toda essa estrutura do trabalho de Steve Clifford tem permitido com que suas equipes sejam ‘mais competitivas’ do que o esperado em grande parte de suas sete temporadas como head coach na liga.

A dinâmica tem sido bem clara. Quando Clifford está no trabalho, o índice de vitórias é significativamente superior do que quando ele não está.

Veja um comparativo.

Em 2012-2013, um ano antes do treinador chegar à franquia, o Charlotte Bobcats havia terminado a temporada com uma campanha de 21 vitórias e 61 derrotas.

No ano seguinte, já com Clifford no comando, a equipe saltou para uma campanha de 43 vitórias e 39 derrotas – se classificando para os playoffs daquela temporada.

A dinâmica se repetiu em sua chegada ao Magic.

Sob o comando de Frank Vogel, em 2017-2018, a equipe de Orlando terminou com uma campanha de 25 vitórias e 57 derrotas. Já no ano seguinte, após a chegada de Clifford, o Magic saltou para 42 vitórias e 40 derrotas – se classificando para os playoffs daquele ano.

Vale ressaltar, que em ambos os casos, nenhum dos times tiveram mudanças significativas em seus elencos.