A decepcionante passagem do ala Cam Reddish (Hawks) pelo basquete universitário na temporada 2018-2019 não impediu que o Atlanta o selecionasse na 10º posição do último draft da NBA.

O que para alguns pode ter sido uma ‘ousadia’, para nós – da Central do Draft – foi um alerta de possível steal. Já que, em termos de talento puro e de perfil físico, o jovem, sem dúvidas, era um talento Top 5 da classe.

Para a preocupação dos torcedores da franquia, no entanto, Reddish iniciou a temporada da NBA da maneira que havia atuado em sua passagem por Duke: sem confiança em seu arremesso de 3-PT e com uma atitude para lá de passiva nos dois lados da quadra.

Os scouters coçavam a cabeça – será possível que um ala longo de 2,03m e envergadura de 2,16m, um atleticismo extremamente fluido, muita coordenação motora, tremendo toque na bola e um trabalho de pernas mais avançado do que a vasta maioria dos jogadores de sua idade não consiga traduzir todas as suas ferramentas individuais em produção nos jogos competitivos?

Reddish respondeu rapidamente – Não, não será possível.

A partir da virada do ano de 2019 para 2020, o novato começou a virar a esquina, convertendo 40.3% de uma média de 4.8 tentativas de 3-PT no mês de janeiro – elemento que lhe deu confiança para ser mais ativo também no lado defensivo da quadra, onde usou seus braços longos para liderar a equipe em desvios por jogo com média de 2.9.

Finalmente relembrando o mundo do basquete do porque havia sido ranqueado na terceira colocação do high school americano em 2018, com um rating de 96 – mesmo número atribuído pela ESPN Americana a Zion Williamson (Pelicans) e RJ Barrett (Knicks) à época, Reddish definitivamente explodiu após a parada para o jogo das estrelas.

Com muita confiança no lado ofensivo, Reddish se consolidou como o shooter que demonstrou ser durante toda sua carreira no high school – matando cintilantes 45.2% de uma média de 4.2 tentativas de 3-PT por jogo em situações de catch and shoot.

Apesar de sua maior contribuição ofensiva ter se dado fora da bola (61.9% de suas tentativas de arremesso foram antecedidas por, no máximo, um drible) – o jovem passou ainda a exibir seu conforto para criar o próprio arremesso, passando a ser utilizado como uma espécie de ‘go-to-guy’ da equipe nos momentos em que Trae Young esteve no banco de reservas.

Traduzindo em seu jogo todo o significado do termo ‘smooth’, Reddish combinou suas passadas largas e seu já mencionado excelente footwork para atacar espaços vazios – sempre equilibrado – para chegar até a área pintada, onde usou sua envergadura com eficiência para converter 61.1% de uma média de 3.6 finalizações na área restrita e ir à linha do lance-livre 3 vezes por jogo no período.

Além de explosivo na linha dos 3-PT e eficiente atacando o aro, o jovem exibiu ainda tremendo equilíbrio em seus pullups e muita leitura para observar o comportamento do pivô – recorrendo ao chute de meia distância contra coberturas ‘drop’, matando 64.7% de seus 1.7 chutes na meia distância.

Em resumo, ofensivamente Reddish se mostrou – aos 20 anos de idade – aquilo que os americanos chamam de ‘pontuador de três níveis’, talvez o único da classe de 2019 a fazê-lo até aqui.

O sucesso ofensivo foi complementado pelo fato do treinador Lloyd Pierce ter lhe atribuído o papel de principal defensor de perímetro da equipe – papel que Reddish cumpriu com alguma competência, usando sua envergadura para conquistar e impactar negativamente em 3% o percentual de aproveitamento dos adversários na bola de 3-PT, bem como seguir liderando a equipe em desvios por jogo, com 3.1.

Seu bom desempenho individual contribuiu ainda para a melhora coletiva do Hawks – que venceu 5 de suas 12 partidas no período, e teve um plus/minus positivo de 1.9 enquanto Reddish esteve em quadra. Pilares da equipe, John Collins e Trae Young tiveram plus/minus de + 0.5 e -0.8 no período.

Na NBA, alas longos capazes de pontuarem com e sem a bola nos três níveis (de fora, dentro do garrafão e na meia distância) e se consolidarem como defensores acima da média costumam ser allstars.

Reddish está só no início de sua trajetória, mas nos dá indícios de que será o próximo a entrar no clube em que recentemente ingressaram dois outros jovens alas de Duke: Brandon Ingram (Pelicans) e Jayson Tatum (Celtics).