Dois jogadores com talento para se tornarem ‘jogadores de franquia’ na NBA, Deandre Ayton e Devin Booker – embora estejam se aproximando da marca dos 100 jogos atuando juntos – ainda necessitam aprender como suas qualidades individuais podem se complementar para o benefício da equipe.

Pouquíssimos pivôs da NBA tiveram um impacto defensivo semelhante ao de Ayton na temporada 2019-2020.

Um monstro de 2,11m de altura, envergadura de 2,27m e 113kg, o ex-jogador de Arizona tem exibido uma raríssima habilidade de mover os pés no perímetro, razão pela qual tem sido extremamente eficiente em trocas no perímetro – limitando guards a um aproveitamento de 39.2% nos arremessos de quadra e os alas a 37%.

Âncora defensiva também por seu impacto na proteção do aro (3º na NBA em contestações por jogo com 16.2 – atrás apenas de Rudy Gobert e Brook Lopez), Ayton tem ainda tido um alto volume de jogo no lado ofensivo da quadra.

Com 15.5 arremessos de quadra por partida, o pivô é o quinto de sua posição com maior média de chutes por partida – convertendo 54.8% delas, aproveitamento superior ao dos quatro atletas que o superam em volume (Anthony Davis, 51.1%; Karl-Anthony Towns, 50.8%; Nikola Vucevic, 47%; Joel Embiid, 47.4%).

Em seus 30 jogos em 19-20, Ayton se consolidou ainda como um reboteiro de elite – com 12 por partida, sendo 4.1 deles no lado ofensivo da quadra.
Booker, por sua vez, usou sua habilidade de colocar a bola dentro da cesta e – a partir disso – criar para os companheiros em situações de dobra, para ser convocado para o primeiro Jogo das Estrelas de sua carreira.

Na melhor temporada de sua jovem carreira, o ala-armador tem se aproveitado do ‘luxo’ de ter um playmaker como Ricky Rubio a seu lado para usar, mais do que nas temporadas anteriores, sua versatilidade como arremessador para fazer parte de seu estrago sem a bola (24.4% de seus chutes vieram em cenários de catch and shoot, nos quais teve 51.8% de aprov. no geral e 40% nas bolas de 3-PT).

Somado a isso, claro, Booker segue utilizando seu pacote avançado de ótimo controle de bola, a habilidade de arremessar pullups e o primeiro passo subestimado para pontuar nas três áreas do jogo – com destaque para sua melhora substancial como slasher, fruto de sua notória evolução física, expressa em seus 69% de aproveitamento na área restrita (4.7 tent.) e os 7.1 lances-livres por jogo.

Na defesa, embora receba críticas exageradas, o jovem de 23 anos mais do que sobrevive na atual temporada – impactando o aproveitamento médio dos adversários em 1% negativos e feito bom trabalho nas linhas de passe com 1.4 desvio por jogo.

Se os dois têm tido ótimas performances individuais juntos. De quem é a culpa pela falta de sucesso coletivo do Suns?

Vencer na NBA é difícil. A maioria dos jovens jogadores – por mais talentosos que sejam – levam anos para fazê-lo a um nível consistente.

Nesse contexto, apesar das performances da dupla do Suns serem ‘suficientemente boas’ para alça-los ao status de ‘futuras estrelas do jogo’ – alguns detalhes fundamentais os têm separado das vitórias. Para corrigi-los, serão necessários alguns sacrifícios, especialmente por parte de Ayton.

Embora esteja sendo ‘superficialmente efetivo’ nos números gerais, o pivôzão tem tido dificuldades de operar em situações em que é chamado a atuar como ‘ponto focal’ do ataque do Suns.

Em cenários de post up, por exemplo – que concentram 22.7% de sua utilização ofensiva, Ayton tem se colocado entre os piores da liga ao produzir apenas 0.81 ponto por posse (25.5th percentile) ao se apoiar demasiadamente em seu excelente toque ao redor do aro, hesitando usar seu trabalho de pés e o corpanzil para ganhar posição a fim de gerar arremessos mais eficientes e ir à linha do lance-livre com maior frequência (apenas 2.6 por jogo).

Para piorar, ele tem somado a improdutividade para gerar bons arremessos para si mesmo no post a uma dificuldade para executar leituras simples e encontrar seus ‘shooters’ após atrair dobras (1.9 ASTS e 2.4 TO por jogo em 19-20; 1.8 ASTS e 2 TO no acumulado de seus dois anos na liga).

Em contrapartida, Ayton tem sido muito mais eficiente quando utilizando seu atleticismo para colocar pressão no aro de frente para a cesta.

Nos pick and rolls, ele faz bom trabalho conseguindo contato frequente nos screens, usando a ótima coordenação motora para ‘rolar para a cesta’ paralelamente ao homem da bola, sempre sob controle, e suas excelentes mãos para dominar passes em áreas congestionadas e finalizar com um toque macio (1.16 ponto por posse em PnR’s).

Ele é ainda mais eficiente na transição ofensiva, correndo a quadra com potencia e graciosidade para bater os adversários em direção da cesta a fim de finalizar cestas fáceis e/ou estabelecer posição profunda no garrafão (90.6th percentile na transição!).

Somar a eficiência como ‘rim runner’ e finalizador em situações de PnR, ao estupendo trabalho que faz na tábua ofensiva de rebotes – bem como à presença como âncora defensiva do Suns, é, no momento, a melhor contribuição que Ayton pode oferecer para o sucesso de sua equipe.

Sobretudo considerando que o fato de Phoenix não necessitar realmente de um outro ‘go-to-guy’, dada a produtividade de Booker no papel.

Não temos dúvidas de que Ayton pode vir a se tornar esse jogador ‘dominante nos dois lados da quadra’. Mas – se vencer é a prioridade – esse é o momento de dar um passo atrás e deixar que o protagonismo do ataque de Monty Williams fique nas mãos de Booker.